quinta-feira, 2 de setembro de 2010

VILA DO INTERIOR

VILA DO INTERIOR
Augusto C. de Lima

Vila do interior
Não cabe sonho grande
Café quatro da manhã
Distante quanto quer que ande

Cachorro dormindo na porta
Casa com cheiro de sopa
Gente cuidando da horta
Poeira cobrindo a roupa

Vila do interior
Santo de pau na estante
Prece que cura a dor
Deus tão perto e tão distante

Gente em torno do fogo
Cachaça acendendo a prosa
Perfume mais forte que o outro
Pra quem sabe colher uma rosa

Vila do interior
Chá de mato cortante
Doce da veha de cor
- Senta aqui por um instante!

Parto no chão da cozinha
Eva nasce em outra cria
Costela aqui é espinha
Sua a roça no outro dia

Vila do interior
Estranho a chamar no portão
Copo d’água em boas vindas
- Põe mais água no feijão!

Paixão perdendo pra lida
Amor bonito se forma
Companheiro a toda vida
Sem escolha, assim se torna

Vila do interior
Nossa Senhora assim conserve
A beleza dessa dor
Pois assim ela me serve

Não permita que meus filhos
Por fraquesa ou por maldade
Torne impura nossa terra
Pra exercer sua vaidade

Vila do interior
Faz, meu Pai, lei desta prece
Do progresso que acontece

Deus me livre, meu Senhor

BATUCADA

BATUCADA
Augusto C. de Lima



Uma cantiga perdida
Um batuque logo acorda
Entra um santo na roda
Chega pra ir embora                                                                   

Batucada puxa a dança
Não se pensa em outro dia
Roda bem feito criança
Tropeça na própria mandinga

Ser humano que se cria
Grande mundo que se torna
Se faz pó ao fim do dança
E se transforma


O que fica é sentimento
Coisa fina que não chora
Não se ama por si mesmo
E na lama não se atola


O que se leva da dança
Não é saia que usou
Não é nome na estrada
Não é obra que deixou

O que vai é a cantiga
Da dança que se engraçou
Que maestra a batucada
 Do santo que a roda deixou

E tão logo se queda da roda
Vai o santo em outra brincar
A cantiga muda roda a fora
Entra outro a dançar no lugar

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

TEIMOSIA


Teimosia
Teimosia
Augusto C. de Lima

Encho um copo de Vontade
Uma pedra o faz transbordar
Uma Pedra chamada Saudade
Arrisca meu copo a quebrar

Cada gota que cai é uma dor
Essa poça no chão é maldade
Como pode se chamar amor
Se é mazela na verdade

Essa água demora a secar
Se é que seca de fato
Tanta água desagua em mar
Tamanho ingrato

Nuvem tanta que não passa
Não deixa o copo esvaziar

Essa chuva está pra tempestade
Cai pedra pra todo lugar
Cada vez eu que olho pro alto
Uma pedra se queda no mar

E se queda transborda a Vontade
E a dor volta a gotejar
Pedra aguda de saudade
Copo cheio está pra quebrar

E se quebra eu morro um instante
Dolorido esparramo meu mar
Pego um copo vazio na estante
E o torno a encher no lugar

ÁGATA

ÁGATA
Augusto C. de Lima

"QUE ALGUM DIA EU POSSA OFERECER AO MUNDO AMOR PURO COMO O SEU"

De noitinha vou pra casa
Ágata pula do colchão
Pressente eu vindo pela estrada
E vai me esperar no portão

Felicita minha chegada
Vai miando no caminho
Me contando sobre o dia
Exigindo seu colinho

Me obriga ir pra cozinha
Colocar sua ração
Se enroscando em meus pés
Me estabaca pelo chão

A comida cai primeiro
Ágata resolve lanchar
Esquece que seu cozinheiro
Também vai se esborrachar

Se esborracha o cozinheiro
Com as fuças na ração
Um macio travesseiro
Amortece o barrigão

O alivio é passageiro
E dou conta do ocorrido
Pois um gato esmagadinho
Dá um mio dolorido

Me levanto num só pulo
Boca cheia de ração
Fecho os olhos pra não ver
A sopa de gato no chão

Com vontade de chorar
Só escuto um barulhinho
Abro os olhos devagar
Pra encarar meu ex-bichinho

Não creio no que vejo
Olha que situação!
Ágata toda quebrada
Ainda comendo ração

O corpinho estendido
Pescocinho para o lado
A boquinha mastigando
O rabinho deformado

Corremos pro veterinário
A bichinha engessou toda
O rabinho consertado
A ração na sua boca

No retorno para casa
Ficamos com cara de tacho
A pancinha meio inchada
Quebrou o gesso de baixo

E não houve mais acidente
Foi achada a solução
Ágata põe capacete
Pra me esperar no portão

ÀS DUAS

às Duas
ÀS DUAS
Augusto C. de Lima

Esse desejo infernal
Incomodou meu coração
Eu que pensava amar demais
Não resisti a tentação
Ao furacão, a perdição
E nem tentei, Era demais
Nem que quisesse era capaz
Contaminou minha razão
Meu corpo inteiro e algo mais
Minha vergonha tanto faz
Não parecia estar errado
O beijo tão apaixonado
Um gosto novo, quase raro
Que com meu anjo não senti
jamais

E eu me arrasei
Me proibi, me discordei
Chorei na mesa e alertei
Causei pergunta e culpa, eu sei
Quase me delatei
Mas me foi tão bom
Que foi tão fácil a decisão
De convencer meu coração
Me permiti, me dividi
Feliz aqui, mulher ali
Você temeu e eu insisti
- Não jogue tudo para o ar!
Ponto de vista dita o que é acertar
ou errar
Conveniente assim julgar

E assim julguei
Era tão fácil acreditar
Sem rosto triste pra encarar
Eu recriei minha verdade
Para encontrar felicidade
Bastava um tanto de maldade
Se arrependi, agora é tarde
Já transmutei meu coração
E transferi minha emoção
Se for preciso eu sou perdão
Mas não me julgue amor
Por muito tempo fui
Solidão

Caro é ser rainha em belo lar
Café completo ao acordar
Ser mãe zelosa até às duas
Quando enfim sinto a casa nua
E me embaralho em várias ruas
Pra ser mulher nas coxas tuas
Sentir o corpo arder, queimar
Morrer um pouco ao te largar
Correr com hora pra chegar
Conter teu cheiro ao me lavar
Checar meu corpo a te encontrar
Botar a mesa do jantar

Voltar ao ato principal
Comer falando, coisa e tal
Contar um dia não real
Olhar nos olhos sem moral
Fumar no banco do quintal
Deitar no gelo de uma cama
Se violentar, fingir a trama
O que se faz por quem se ama...
Um beijo seco ao terminar
Dar boa noite e se virar
Dormir sem tempo pra pensar em sonhar

Bom é acordar, fazer a cama
Mandar a vida quem se ama
Tomar um chá e se sentar
Passar o dia a delirar
Gastar o tempo a se perder
Chegar às duas e encontrar
Você

Ser Esposa e ser Mulher
Sou Duas
Entre uma e outra está você
Às duas

CABAÇO

Cabaço
Cabaço
(O primeiro Samba de Alguém)
Augusto C. de Lima

Dizem que o samba é coisa de preto
E que foi branco quem criou
Mas o boato mais tosco que ouvi
Foi o de que o samba não tem cor

O samba não é preto e branco
É vivo e cheio de cor
Da cor da dor de quem canta
É arte pintada de amor

A Vida colore o que é vivo
Tudo o que é vivo tem cor
Tudo o que é vivo depende do outro e sofre por amor

O samba canta sentimento
E sentimento não é coisa de cor só
Sentimento é pintado de saudade
Tristeza, amor, felicidade...

O Branco é ausência da arte
O Preto é ausência da cor
O Samba não é Branco nem Preto, meu amor

O samba não tem raça
É linda mistura de cor
Cantado em qualquer praça
Sem pele, sotaque e pudor

A verdade é que o samba
Se pinta de dentro pra fora
Não importa a cor da pele
Todo mundo tem um peito
E é no peito que o samba mora

E não diga que um samba é seu
É do todo
Por se toca o coração de outro alguém
Não tem dono

Eu confio na vida e a vida tem cor e o samba tem vida, meu bem
Pois batuca o peito da gente
Dá sentido ao caminho de alguém

Só não diga que o samba é preto ou branco,
que é meu, seu, de mais ninguém
O samba é daquele que canta
E que pinta suas cores também

O Branco é ausência da arte
O Preto é ausência da cor
O Samba não é Branco nem Preto, meu amor.

HOMEM CARO EM CENTAVOS

Homem caro em centavos
Augusto C. de Lima

Acreditei
Que te faria ver que o seu melhor só começou
Depois de mim
Não é vaidade
Mas deu pra ver que o seu sorriso abriu demais quando eu cheguei
E é verdade

Na vida só o que resta é o que se tem de raro
É triste ferir um peito por obviedades
Tens pela frente a escolha única pela eternidade
Ou andar em círculos, ficar pelo caminho
Não preze o mais comum

Não se maltrate
Não julgue pelos erros o que você deva ser
Se reconheça
Amadureça
Perceba o belo dia em torno de você
Não deixe que anoiteça

Entendo que até hoje assistiu a vida sem cor
Sei que é mais seguro acreditar que tudo é besteira
Se é pra se proteger, não tenha medo
eu te acompanharia por essa  estrada inteira
Meu amor